Saturday, August 14, 2010

[suicídio durkheimiano]

mesma consciência processual
inteira em fraturas
a musculatura
podre acre-lhe, em sopa
masmorra a cadência
caricatural, então
então eu não sei - sou mais que anômico,
morro pela vontade - a derrota
me traz o sal na boca
me faz cuspir
olhar meus joelhos
e ainda respirar fundo

Saturday, July 17, 2010

monólito uruguaio

é vazio o copo que cai insone da cama
e com a ponta dos dedos
arrisca
um risco fundo no asfalto, e que
agora é aço
mas que se quebra com um sopro e
é vazio
é vazio o corpo que cola-se ao teu
que finge que cai
que sobra, grosseiramente sobra
nas paredes de meu ego
apodera-se, o outro, afoga o faro
em meus cabelos, inunda o ambiente
com o hálito, sobeja meus lençóis mas que
escorrega em minhas manchas porque
é anônimo o corpo que diz ser meu,
cai dormente
cai
inerte
descontrói-se
junta-se
e já não é o mesmo
o rosto dele
é vazio
mas é saudade o que eu sinto

Thursday, April 01, 2010

Pontes amanhã

Ainda cores incômodas incendeiam meus pés já vermelhos e torrados com o pouco do veneno solar disponível ao meu estrato social. Logo ontem que a chuva negra levou meus sapatos sem que eu pedisse (e eu queria) essa imposição, sorria com o muro aberto e escroto no qual me batia e me perdia.
Amanhã uma coluna ergue-se nos nossos corpos colados -mais parece cercas-, e temos a ilusão de que subimos sem saber que nos pisam e nos usam como escadas. As pontes de amanhã não mais separarão homens. Um barulho irritante faz meu peito voltar a bater.

Friday, January 22, 2010

Sangue de Malcolm X

O quente desprende-se de meu corpo
mas só aos poucos
sinto
a gravidade da
dormência que causa a bala manchada
com teu sangue. A pele absorve
com dificuldade o outro
que funde-se a mim.

Mas só aos poucos me sinto morrer.

Bebo um pouco do sangue que
corre pavoroso e sinto
um gosto metálico
que não silencia
que jamais silenciará.

Sunday, January 17, 2010

Mário de Sá

O sorriso de um corpo quase morto, sopro que nasce no estreito peito, singular, angular, embriagado falo eu de coisas passadas; erguendo meu crânio, soprando minhas vértebras, como dizia o jovem poeta. A sede que me impede de sorrir é saciada com rapidez e a música nunca me foi tão desnecessária... E é silêncio .Quero me afogar nestas trevas.


Perdi-me dentro de mim
Porque eu era um labirinto
E hoje, quando eu me sinto,
Eu sinto saudades...

Passei pela minha vida
Como um astro doido a sonhar
E na ânsia de ultrapassar-me nem dei por mim.

Sim, porque pra mim é sempre ontem
Não existe o hoje nem o amanhã
O tempo que aos outros foge
Cai em mim feito chuva...

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas tortas que projeto
Se me colo a um espelho erro
Não me acho no meu reflexo...

E alguém bate na porta.


Quem é? Ah! Ora ora!, se não é o meu amigo José Araújo! Quem diria que finalmente apareceu, todos já o esperavam. Olhe, não sou muito de suportar atrasos mas hoje não imponho restrições, o espetáculo começa quando todos os meus amigos chegam, e faço questão de recomeçá-lo toda vez que um novo ente querido vier a mim, afinal, hoje é um dia especial, quero comemorar minha vida. Vamos, entre e fique à vontade.

Fico alguns minutos em silêncio, minutos provocantes. Não consigo esconder a minha sensação de desconforto, nisso sou péssimo ator.

Não, não é só a cabeça que dói, você bem sabe para que veio: assistir-me. E isso implica em não atrapalhar o ator em sua performace, não importa o que ele faça. Então não adianta me pedir para que eu volte atrás porque você me conhece. Apenas sente, espere e observe, meu caro amigo. O espetáculo tem que continuar.
Um brinde ao arseniato de estricnina! Um beijo na eternidade... e um olhar sobre mim mesmo. Eu cada vez mais me convenço de que não saberei resistir ao temporal desfeito, à vida, onde nunca terei lugar... Em suma, não creio em mim nem no meu curso nem no meu futuro! E sofro ainda também, meu querido amigo, por coisas mais estranhas e requintadas: pelas coisas que não foram.

Quando eu morrer que batam as latas
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam estalar no ar chicotes
Chamem palhaços e acrobatas
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à anda-luz
A um morto nada se recusa
Eu quero por força ir de burro...

Pagando pelos pecados que cometi. Aí você me dá um sorriso irônico, cruel, e pergunta: “pecados?”. É já uma outra vida, dá até um livro coberto de imagens: satíricas, metafóricas... eróticas... Outra vida, e nisso não há dúvidas. Ando mais absorvido nas minhas inquietações, hoje pergunto mais antes de agir, perguntas feitas sobretudo a alguém que se enganou durante todo o ato: Mário de Sá-Carneiro.
Mas eu já amei. Quem sabe continuo amando mesmo sendo já tarde, mesmo sendo segunda-feira. Quem sabe... me visto com tantos medos que às vezes a mentira é aplaudida. E tão necessária!... Tão necessária mas não importa, a este suposto ser eu ofereço um último soneto.

Que rosas fugitivas foste, ali
Requeriam-te os tapetes, e vieste
Se me dói hoje o bem que me fizeste
É justo, porque muito te devi
Em que sedas de afagos me envolvi
Quando entraste nas tardes em que apareceste
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar que remordi
Pensei que fosse meu o teu cansaço
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, de tão esbelta, se curvava
E fugiste... que importa?
Que importa se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade
A cor se trava?

Sim, que me importa a dor? Pra isso existe uma taça! O que me faz correr e voltar... uma peregrinação sem fim, eu não sei, mas o que me faz correr e voltar é um sentimento de falta intríseco ao homem. A falta. E o que realmente importa pra mim é tudo o que me faz sonhar.

Por um tempo pensei que isso tudo era só narcisismo, fruto típico de um ego tão envaidecido e por que não precoce?... Hoje enxergo os fatos de uma maneira menos presa a questões materiais ou mesmo morais, apesar de sentir o mesmo temor que me persegue a anos. Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, disse que não é a morte quem sempre nos ronda; não, não é morte porque todos nós estamos condenados á vida: viver é sofrer, isso eu repito todos os dias. Soa pessimista, talvez, mas não há como não se render a tanta dor e miséria que nos roem a perna, medos que não nos deixam dormir. Sim, porque a dor, a miséria e a desesperança me atacaram um dia, viví de meu sangue. Assisti a sonhos se desmancharem no vazio. E é tão fácil, são frágeis, um instante só e acaba.

Acaba. E eu aqui, tomando champanhe com veneno, olha só! Veneno... e não é nem por riqueza não, sou até mais pobre que outrora, choro até mais que antes. O mundo é mesmo sarcástico... olha aquela estrela e diz se ainda brilha, se já não morreu há muito tempo? É o que sinto ao olhar-me num espelho. E esses sorrisos tão falsos que encontro nas ruas, também já não morreram a décadas? Quem dirá? Não eu.

Sou ainda mais infeliz porque tudo é tão vazio como eu: uma carapaça ainda suja de sangue. Hum... belo título! Mas agora eu só quero o silêncio... e o último gole desta taça.

Fios de ouro puxam por mim
A soerguer-me na poeira
Cada um para seu fim
Cada um para seu norte
Ai que saudade da morte...
Quero dormir... acordar...
Pra que essa grandeza?
Pra que me sonha a realeza
Se a não posso transmigrar?
Ai que saudade da morte
Vontade de dormir...
Vontade de dormir...


Escrito em junho de 2008

Thursday, October 08, 2009

Anzóis puxam Martha Graham

Eu minto quando digo que o homem não é um ser poético. Eu minto quando te nego o desejo que tenho do movimento, de participar da linha que se desconstrói com o tempo e leva ao chão o pouco do corpo salvo. Minto quando desprezo o calor do outro, do desconhecido, quando não desapego do cheiro que é sufoco, que é o nada sem expressão, é pura força. Eu minto porque a luz do palco nada ilumina, me é cega e nós tateamos até o fim do espetáculo... Ao repetir essa linha do corpo, ao repetir o que é inconstante – não monótono, mas inconstante – ao me repetir eu vejo que apenas tateamos a mais bela das danças.

Anzóis puxam Martha Graham da prisão de um vestido negro que, verde do suor azeitado de uma cama rígida mas frio como o corpo de uma mulher que cai da cama e nem se quer se impacienta com o ritmo acelerado das coisas e que desmorona e que, impossibilitada de continuar marchando, vê num retrato o tal pano negro cobrindo o rosto de Martha Graham, a eterna outra, presa nesse pano onde alguém escreveu “amor” com letras garrafais. Minto quando digo que o homem não faz poesia.

Monday, July 06, 2009

linhas malthusianas

até
que

esse
meu suor

que só
mancha os meus

lençóis sem
desculpa falta chuvas e esse sol

a fome do lugar e
as costas sujas de suor as costas sujas de suor as costas

Thursday, March 19, 2009

eis o homem!

é com a boca suja mas mastigada num falso lenço branco que o homem inutilmente tenta esconder-se da platéia . é com o pouco do sorriso amassado no rosto negro que o homem apresenta-se à platéia . é com o corpo magro e inutilizado do homem que a platéia embriaga-se, farta-se da dor alheia . é com o resto desse corpo mergulhado numa lata de coca que o homem martela as costas quentes da plateia . é com as pernas inúteis que o homem suspende-se, é com o barulho dos ossos quebrados nos dentes da plateia que o homem grita, que percebe-se homem : ouvindo a própria dor. é escondendo-se da fome que o homem resume-se no frágil arquétipo, tenta atravessar a platéia faminta de carne negra. lambem-no.

Saturday, January 17, 2009

parto (me)

prados percorrem o humano feito louco
além dos socos
incoercíveis da mãe
que rouba do papel a sombra da placenta perdida
ou só consumida no verde azul do céu

Sunday, January 04, 2009

olhos

aqueles teus olhos que
me tremiam o corpo inteiro que
me esqueciam num espaço num espaço num espaço qualquer que
me espetavam
me afagavam, me afogavam nos braços rijos de tanto amor
não sairam nunca
nunca sairam das minhas lembranças
assustavam tal criança, pura
pura extravagância! pelos olhos eu sentia o calor do corpo
e a escuridão da alma - pedindo baixinho que
"não me engane mais": foram aqueles olhos fundos.
aqueles teus olhos que tanto amei...
hoje me perseguem

Monday, November 10, 2008

Pescadores

mãos as quantas, nem sei
desfiz-me surpreso
mãos
que apertam (surdas)
o peito, que ofuscam
nutrem-se dos ardores
mãos
ocas, que só passeiam
percorrem, oco do mundo
incontáveis
inconstância
ânsia, sentí
sentí calor, suor
um tão pecaminoso pavor
amor!,
dias então
esses dias nossos tão iguais.

08 de novembro de 2008

Thursday, October 30, 2008

Vozes

para Lygia Fagundes Telles

Borgonha como antítese à vida, como minério: sólido. Quando eu enfio a cabeça e espero. Espero. Como para a dor, assim equivale o amor: a saudade é um ínfimo de misericórdia quando brande a espada, brande o caixão, brande tua mão qual seiva laboriosa, seiva de nossos pés...

Sorrí um corpo outro dia perto de casa
..........um corpo
enterrado nas mais copiosas angústias
onde a pele escorria no sangue lamacento
................................no peito turvo
............................na boca rasgada
........................na fala rouca
...................um hálito que grita
.................e grita
.................e grita..........

Foi quando ouví tua súplica pela última vez e tremí já envelhecendo.
Pois tu fala fala com perguntas: dois amigos, três irmãos e cinco inimigos são a tua família? São teu pão, tua prisão. Gloriosa vitória é meu mundo, é assim.

Perdí
Notei só o escuro
Nas asas quentes
Um pouco do sorriso
Porque ao te abraçar
Eu me cortava nos parcos beijos.

No lugar do rosto, uma rosa
que teimo em pisar.


abril de 2008

Meus novos hematomas

"Um pêndulo que nasce nos lembra o outro dia, onde tudo é doce e a manhã é longa e acolhedora. Meu cheiro transcende o papel, some por entre casas e outros becos desfazendo-se em bolero. Meus novos hematomas são chagas que me iludem, luzes que me cegam os instintos. E aquele velho senhor que tanto me desejava o bem, por onde anda? Não, eu só queria saber se o seu vício é maior que o meu, a dor..."

Jorge cai.

"Morre! E esconde bem os teus pecados para que os outros não percebam, talvez ainda consiga se salvar. Covardia rima muito bem com o teu nome, Jorge. Eu mesmo te erguiria, colocaria-te lá no topo só para ver a tua quedaque vem do ódio que que nutre por si próprio. O niilismo não te serviu muito, ao que parece."

- Quando sair feche a porta. Nesses tempos não me queixei muito do frio, mas seria bom ver-me trancado neste quaro escuro; sabe, cheio de caminhos. Tua presença, mesmo sendo desagradável, é muito importante para mim. Olha meus pulsos... fiz por ti.

- Deixa de ser tolo, nem ao menos sabe o que é amor! Olha, olha bem pra mim! Foge por que teima em se virar pra trás, erra como antes e se mata como a um inimigo.

- É porque você, Cássio, você não me enxerga, amaldiçoa esta casa mas não me deixa falar. Não cheguei aqui sozinho pra sozinho ficar.

- Claro que não porque eu te conhecí bem pior, meu caro. Tu me deve a vida

- Que vida? Pode me mostrar?! Esta prisão que me sufoca, esse mar insólito do qual me embriago com moléstias, ilusões, quantas alegrias, hein? Sabe o que ganhei quando um dia decidí largar tudo para te seguir? Nada! Fui estúpido. Busquei por respostas que talvez, não, talvez não, com certeza, respostas que com toda a certeza não me farão falta! É uma prisão, já disse isso? Uma prisão, um cemitério. Eu te odeio Cássio, tudo culpa tua!

Jorge continua:

"Eu vivo voltado para a palavra que me define, logruras e logruras numa interminável corrida entre cores que me circulam. Universos nossos tão pequenos... E minha vida? Ah, sei mais. Só um sol a me queimar."

- Mas escuta, tu mesmo se corrompe, é vil isso. Fizeste uma escolha - correta, por sinal-, e agora se arrepende por não mais sentir o chão, por ver tudo desmoronar. Esta é a mudança que tanto te assusta, Jorge.

- Não, o meu fim. Não queria me ver desta forma.

- Tu nunca se viu além do próprio reflexo.

- Me deixa, tira esse cobertor de mim. Já disse mais de uma vez que sou o que eu sonhei um dia e isso é o bastante pra mim; é, o que eu sonho, o que eu como e vomito. Certa vez, sabe? Certa vez acordei cantando com vontade de "ser". Você entende? Vontade de só "ser". Mas hoje, hoje transformei-me num lixo bem menos fértil que outrora.

- Só marcas.

- Não, são minhas chagas. Tempos que amava demais. Tempos que não voltam. Eu não aprenderia nem-

- Nem se eu gritasse...

- ...nem se eu gritasse. Cortes antigos mas a dor ainda é a mesma, nem sei se nesse tempo todo mudei em algo - não sinto nem essa mudança que você repete sempre. Sou fadado à derrota, Cássio. Desistí no meio do caminho... à derrota Cássio. À derrota.

Um que grita.

Corpos, luz e som
desejos altos
..............mas antigas vontades
Poder que tudo santifica
e satisfaz
...................................................como se
como se
..............nada mais me limitasse
Porque o que é fraco logo apodrece
...........................compaixão
desgraça
.................povo

- Sabe, continuo nessa ilusão por não cansar. Vejo um sol, desgraças e gemidos. Ninguém me esqueceu aqui, sozinho, sozinho vou? Corpo que canta, sopra, vontade de potência que ainda não me atrai. Aqui. Cássio? Abram as portas, por favor! E as janelas, mares, gaivotas que apenas voam, brisas e uma vista linda: tão perdida quanto um "quarto negro" cheio de hematomas. Chagas que gritam e me impedem de ser. Gritam, gritam a noite inteira. Um quarto tem chagas, escadas e corpos suados que me dão infinita vertigem. A bola pai, deixa-me tapar-te a boca com um beijo que rasteja sobre pedras e sentimentos alheios, sede de amor, aluguel de vidas - ainda há vida nesse corpo que não se mexe? Não sei, não consigo pensar direito nessa alegria toda, mas somos jovens apesar do que aquele velho diz, e por vezes teimamos em respirar a mesma demência. Pronto, abre os olhos e vê o mundo que fizemos pra você mas nunca mais me pergunte algo (poderia chamar de qualquer coisa por tão real). Não, nada de novo nestas páginas, e o amor, é maior que o teu corpo? Onde estavam para que não a vissem acordar? Amor. Faltam testemunhas com olhos e ouvidos. Os dentes, meus dentes me fazem rir da tua cara. As chagas gritam e me perfuram com desilusões. Saudade, teu mal é saudade. Hein? Tempos em que sorria, limito-me a repetir histórias que só invento; desculpa, sai e independe de mim. Nem mesmo sonhos parecem dizer-me algo. Cheques...

Inexistência que nos segue
Sórdido, sádico
Abalos e partidas, procuro algo que
me choque
Pois o mundo
nesse mundo
nada mais é orgânico.

São passos, infâmias, sussurros. Vomito algo que me corta por dentro, sinto em mim um fio de ouro prestes a romper, suspiro. Passos, continuo ouvindo passos.Neste ambiente é preciso prender a respiração e tampar os ouvidos, camuflar-se e esperar o momento certo para fugir. Mas alguém vem vindo, talvez seja Cássio, veio!Olha Cássio, meu corpo todo sangra por ti. Olha meu sorriso e diz que não sei o que é amor. Lúcido, sinto agora vontade de sair e viver. Cássio, fala comigo, por onde andou? Neste quarto só consigo ouvir a minha voz; nâo, há tantas outras!, olha só quantos gritam meu nome... Parem! Parem!

Sim, é Cássio quem vem para me levantar. Ele passa por entre cortes e respira forte. Respira e volta.

Ele respira e volta.

Monday, October 27, 2008

vermelho vermelho

Ah, se sou
assim,
assim suo, ouço
só coço
osso puro osso de
aço
casco (dá-me
'asco') sem "ser".
Por quê?

Assim sem fel
sem nenhuma desculpa pra
é... pra falar
assim sem nada
andando eu vou
e vou vou...

Assim vermelho
ver-me
(verme) lho
ver
ver (melhor)
(velho) eu
eu vou
vou vou...

25 de outubro de 2008

Sunday, October 05, 2008

um dia

pra descansar é tudo o que peço um dia pra acordar e ver a cara do filho dormir sem precisar levantar cantar como é bom cantar sem ter que se preocupar sem ter que acordar pra ver a cara do filho que finje dormir só pra não ter que sentir o cheiro da roupa suada do pai porque sim nem pra ouvir a voz rouca de meu pai eu sentia vontade de levantar da cama e sentia medo e continuava deitado mesmo sendo já tarde eu acordava tarde pra evitar me olhar tanto no espelho não ter que bater tanto na cara não ter que chorar tanto pelo tempo que passava voando e eu alí parado num quarto escuro farejando comida e se eu parecia quieto demais esse silêncio só mascarava segredos de uma vida tão medíocre que mereceria ser vivida eternamente assim como nair mãe de meu filho morreria pior pior eu acordei mais tarde ainda com dor de cabeça e uma preguiça de levantar quando ouví um barulho uma pancada é pancada vinda do banheiro mas tão discreta que passaria por qualquer outro menos a mim porque tenho um coração muito ciumento e tive então a certeza de que havia mais alguém lá porque nair mãe de meu filho era uma sonsa que nunca me enganou mas estava sozinha como sempre silenciosa como sempre me faz calar a boca e me arrepender de falar tantas injúrias porque faz tanto tempo que às vezes duvido mesmo se ouví aquilo e ela hoje parece uma santa sonsa mas acho que não teve barulho não isso é coisa aqui da cabeça de um velho que vive trabalhando de sol a sol sem reclamar de nada talvez eu só quisesse ter ouvido a pancada pra a minha vida fazer mais sentido a gente quer muita coisa na vida espera sempre que o dia de amanhã seja melhor e que a chuva chegue logo porque o gado não aguenta muito tempo mas um diazinho de folga é tudo o que peço não peço mais nada não quero mais nada talvez um copo d'água por favor como faz calor obrigado mas e o dia hein o dia que peço é pra ficar em casa e o senhor nem vai sentir a minha falta porque um dia é curto demais eu logo volto feliz por ter estado em casa o senhor não sabe como essas poucas horas são importantes talvez mudem a minha vida talvez salvem do inferno um miserável que detestava o próprio pai você acredita que eu não conseguia olhar na cara dele ou puxar uma conversa sem tremer e que vontade tem a gente numa hora dessas da vida ao ver tanta besteira que fizemos de querer voltar atrás e fazer diferente porque agora parece simples um abraço é simples um aperto de mão assim como o pedido de desculpas e com ele rir da vida porque a vida é simples pra quem quer e se eu não tivesse perdido tanto tempo deitado naquela cama velha essa conversa seria tão desnecessária quanto essa lágrima que cai você pergunta e eu digo que ela cai porque sim eu odiava o meu pai e me arrependo porque que mal faz um pai só por ser pai ser ausente sem dia para saudades nem comemorações mas verdade que não tínhamos muito o que comemorar porque nair desapareceu logo depois que resolví voltar pra casa e o dia que peço meu senhor é justamente pra conseguir voltar porque até agora não cumpri minha promessa quero sonhar com um dia melhor me perder em lembranças ao longo das horas sem me preocupar mais com a família se precisa ou não de mim se lembra ou não do meu rosto que já mudou tanto por já estar tarde e nem sinal de um sim pra o meu pedido mas eu tenho esperanças sou trabalhador nunca faltei um dia nunca cheguei atrasado nunca reclamei dessa porcaria de salário nunca me defendí dos insultos ou da exploração nunca lutei pelo que realmente merecí e quando me pediram os nomes dos baderneiros eu entreguei todos porque a minha fome era maior e como sofro aqui como trabalho nesse trabalho inútil que nunca dá sinal de prosperidade como me arrependo de ter saído de casa olha só o que conseguí juntar nesses anos todos fraturas ferimentos e ameaças sem fim pareço inofensivo demais para abutres tão acostumados com a carniça humana e se é de direito seu que um preto apanhe tanto aqui estão as minhas costas já que nunca pedí por respeito nem coisa alguma além desse maldito dia que eu usaria pra sumir daqui e ir pra bem longe com o meu filho mas não vou mais não quero mais nada de você amanhã estarei aqui às seis da manhã com a cara dura esquecerei de que preciso cuidar do meu filho abandonado para estar aqui como sempre

Saturday, October 04, 2008

Chuva

Passei o dia de joelhos
o dia inteiro
enfeitando o cabelo
e esperando a chuva passar. Chovia, então...
Mamãe desde cedo que dizia
que moça de respeito não podia ir
nesse tipo de festa, que só podia rezar e cozinhar.
E o resto? O resto o marido traz.
Que marido? O que há de te sustentar.
Pra quê um homem se sei me cuidar,
se sei plantar feijão?
Um homem pra ser pai de teus filhos, criatura.
Se eu tenho raiva de criança!...
Não vai me dar um neto?
Vou mãe,
desculpa.
E a chuva não passou.

03 de outubro de 2008

Friday, October 03, 2008

Status Quo

Um corpo que ajuda a vender.
A cortina abre mas eu sempre espero um pouco até ter consciência de onde estou. Rostos desconhecidos em sua maioria: pergunto-me para quem eu realmente faço isso: não é mais simples vaidade. O palco (antes tentador mas que agora não pulsa mais) é imenso, às vezes perco-me na sua escuridão, e ele na minha – neste espaço todo sempre fui o único objeto a se mover, percorro-o e todos olham atentos os movimentos ora suaves ora secos que projeto; não consigo fugir desta minha obstinação ao ser tão pontual: nos primeiros minutos já são usados alguns de meus trejeitos – é a forma que busquei para me absorver mais rápido. O palco é frio. Palco que engana, palco que eleva.
Mas a beleza também ajuda a vender.
Modelo o corpo (ou seria exatamente o contrário?) esperando que alguém pague por ele míseros trocados, míseros minutos de prazer roubados na correria sufocante de nossas vidas – não sobra tempo nem para eu lamentar essa tragicomédia. O rosto torna-se pálido mas tenho vontade de rir, de dançar uma valsa que para mim expresse a superfluicidade de momentos assim tão incompreensíveis; acaso, hoje encaro assim: apenas acaso.
Corpo meu?
Cortina que teima em fugir. O simples movimento de um braço me faz aliviar a existência, a perna balança no vazio e eu não consigo disfarçar o sorriso: extensão ilusória de mim mesmo? Danço como se a música fosse feita para aquele instante, como se fosse feita para mim – o artista é mesmo um ser muito ingênuo. Mas até onde vai o corpo? Em que proporções e em quais das tantas dimensões são usadas nessa brincadeira? Se sou eu quem determina o que vejo então a extensão de minha perna perfura o invólucro fino que é o sonho. Esse corpo tão enfeitado seria mesmo menor que o amor que finjo sentir quando me encontro aqui? Impossível!, o amor nunca conseguiu ser tão intenso quanto a mentira. Mas o que é o amor? Como deveria sê-lo? Não sei, pergunta pro Paulo Coelho.
Eu queria ter dito qualquer outro nome, berrar sentimentos estranhos, alheios, irritar-me com o amor. Eles não sabem que a lágrima que cai é improviso. Notam que estou inquieto mas ignoram o desespero. Tenho vontade de correr para nunca mais voltar, largar tudo o que é mecânico, marcado (mercado), sair desta prisão e correr, correr pra nunca mais voltar.
Aplausos pra que? Pra quem? Pra que o corpo serve? É antes um espetáculo aos olhos inchados e barulhentos que a meus pés, nada mais; o cenário cada vez maior, (eu) ruminando as tantas dúvidas de um coração sem pai, sem enxergar uma vida além dos bancos, sem viver além dos bancos – esvazio-me parcialmente em prol de nosso espetáculo, tudo pela Cia.!
Alguns já saem, impacientes.
O suor derrete a pintura que faltava, agora sou orgânico, erro como humano e me visto de André, de João, de Márcia, sou todos da primeira à última fila porque abandonei o simples personagem caricato. Sou qualquer um menos este ser aparentemente cansado, rindo agora muito, eu gosto de rir, gosto de pintar, de dançar, gosto de soltar pipa.
No fim eu paro e fico imóvel.
As cortinas fecham-se, finalmente.
Silêncio.


Maio de 2008

Wednesday, September 03, 2008

FevereiroMarço

- Marinheiros, volver! Volver! Voltem desgraçados, fugir pra onde? Quem, eu? Não!, tô falando deles: olha lá o bando de desertores! Não fazem idéia dos tormentos e perseguições que os esperam porque lá fora os homens nos odeiam, é perigoso, sabe? E eles vão indo sempre, não importa o que eu diga! Volver! Ei! Por que ninguém mais me escuta? Por que ninguém mais me respeita? Por acaso sou anêmico... alérgico... anencéfalo? Não, não sou porque se eu fosse tu não sorriria mais, eu arrancaria teus dentes só pra não ter mais o que mostrar. Eu gritaria: Que bela carranca, meu caro!, Que bela carranca!... O teu sorriso não sobrevive sem esses dentes, é belo mas inconsistente, é frágil. Ai, e que bota apertada essa minha, dê-me licença para sentar-me aqui e tirá-la. Pra mim não existe preocupação maior que meus pés, se eles sofrem é porque o mundo desmorona; e olhe em volta, que tristeza esse lugar. Uma miséria, se eu for eleito passo o trator por cima, seria antes um favor. Mas me diga uma coisa, viu passar por aqui uns tipos suspeitos? Gente mais ou menos delinquente? Ah!, muito obrigado. Vou indo, foi um prazer revê-lo. Mande um abraço a seu pai.

- Meu pai morreu. Minha mãe e minha prima morreram. Morreram vizinhos, cabras, bezerros, galinhas. Morreu a família toda.

- Ao menos o senhor sobrou.

- Quem sabe?

- O carteiro deve saber. Dizem que essa gente sabe de tudo. Quer cartas?

- Não, pra mim basta isso aqui.

- É humilde, que pena. Não suporto pessoas assim, são traiçoeiras e contaminam o meu ar. Ouvi falar de um que ofereceu a casa a pobres viajantes que vinham de longe, lá de Juazeiro. Eram dois rapazes e uma moça, aqui a foto deles. Pois bateram na porta desse tal humilde e entraram. E era até um homem respeitado no lugar, apesar de ser metido com poesia. Que crueldade fez esse homem, matou todos com golpes de enxada porque um dos miseráveis ousou falar bem dos modernistas: o homem odiava os modernistas! Tem gente pra tudo. O senhor não quer que eu durma aqui, quer?

- Não.

- Que bom. Vamos, dê-me a foto. Não vim até aqui pra passeios como o senhor deve estar pensando, não, procuro uns desertores, gente violenta que anda fardada... Meu Deus, que juventude é essa que não respeita mais uma farda? O que me espanta é essa sua indiferença, acorde homem! Eles são perigosos, fugiram das jaulas para cometerem crimes e se pegam você, matam! Matam, está me ouvindo?! E eu não vou estar aqui para salvá-lo, a minha aposentadoria deve sair no final do mês. Trabalho duro desde cedo, mereço descansar. Estarei tomando cerveja na beira de uma praia enquanto você é estrangulado, velho miserável! Dê-me um sinal, aponte pra quais lados eles foram, aqui a foto deles. Vamos, diga-me logo antes que... Eles foram pra lá? Obrigado, agradeço pela ajuda e pela conversa mas tenho que ir, anoitece rápido neste fim de mundo. Ora, o senhor pegou minhas botas? Estranho, tenho quase certeza de que não vim até aqui descalço. Bom, meus pés agradecem, olha como são limpos e delicados, diferentes dos seus. O senhor tem um pé muito feio, desculpe-me. Mas como aguenta viver aqui? Nunca pensou em fugir? É que é só nisso que penso, fugir. Nunca consegui ir tão longe, tinha medo do que eu poderia encontrar, coisa de jovem. E os jovens morrem cedo, não é? As marcas no seu rosto dizem que sim. Acho que me perdi, sinto-me confuso... Não quero nunca mais ver o seu rosto, esse rosto comum, rosto de bêbado, de açougueiro, rosto de carteiro. Quer cartas?

- Não.

- Que pena. Que pena. E chá, tem?

- Sim.

- Vá buscar. Lembrei de um amigo que sumiu só pra não ter que ir ao dentista. Sumiu pra sempre... O senhor mora aqui há muito tempo? Uns trinta anos?

- Desde de que nasci.

- Uns trinta anos?

- Sessenta

- Sei. Deve ter sido uma vida dura. Vou contar-lhe uma piada para animá-lo. "Certa vez um repórter perguntou a um escritor, desses mais novos, o que ele tinha a dizer diante das críticas que o seu último livro andava recebendo. O jovem respondeu: 'não sei, eu também não li o livro'”.

- Não teve graça.

- Vai ver não teve mesmo. Ora, as botas voltaram! Agora vou ter que calçá-las, que vida essa minha! Obrigado pelo chá, estava ótimo. Foi você mesmo quem fez? É que a gente aprende a desconfiar a essa altura da vida e vai conversando até se esquecer do tempo. Tenho meus afazeres, não sou um desocupado. O problema é que é bom demais falar, escrever também mas escrever às vezes cansa.E na medida em que os desejos físicos vão morrendo, aumenta a minha necessidade de conversar com os iguais. Vou indo, quando passar pela cidade faça o favor de me visitar, ficarei agradecido. É sempre bom receber os amigos, falar da juventude, de coisas velhas. Preciso conversar com alguém nos sábados. E esses dias que se parecem tanto com os outros... Meu Deus, vivemos em tempos difíceis. É fevereiro ou não?

- Talvez. Mas ele d-...

- Diga-me, como acabou o seu velho pai?

- Morreu.

- Então a peste também chegou por aqui. Tempos difíceis... Eu mesmo tenho vontade de largar tudo e ir embora, mas a farda está grudada no meu corpo. Ora essa!, eu já ia embora sem entregar-lhe esse telegrama, chegou hoje pela manhã e aqui está, acho que é de algum parente seu que teimou em não morrer.

- Todos morreram.

- Vamos, homem. Abre logo que eu quero ver.

- Não, agora não. Mais tarde.

- Tudo bem, eu espero. Eu espero.


2 de setembro de 2008

Tuesday, July 22, 2008

O Vendedor

__________aquele
_______que me encontrou
__________no mais
__________escuro
___________dos
_________corações
_____onde violinos tocam
_____com__seus___sons
____tristes_ umas__mãos
_____já___velhas___uns
_________cabelos
_______rudes
____achou
_____me
_____em
_completo
_abandono

Orações ao Alto

A forma / informa
no barulho
das armas (autor desconhecido)
Infantaria cresce
confundindo / belo hino
horror com gratidão pelas
Canduras. Já foi engraçado
ver-te-me no pior dos vermes
mastigando
repudindo (me?) só pra ficar mais perto de ti.

A forma / deforma
no submundo
paroquial (autor subjetivo)
Marcha que cresce
desce
sempre subindo.
vou-me também na correria das
Loucuras. Tornei-me também patalógico
mas curável, é bom escrever. Curável.

A forma / transforma
no absurdo
antropófago (autor apelativo)
Sintomas crescem
desaparecem
pele branca, pêlo encardido
mastigando
(me)
mas sempre em pé.

- Queimaram a farda
Queimaram a farda
Queimaram a farda

Foi o que ouví.
E entendí, tempos mais tardes, que nossa pátria morreu cedo demais.